terça-feira, abril 18, 2006

O cara é sempre bom...

... mas às vezes é melhor ainda. Este texto está um primor, principalmente para quem, como eu, se identifica.

O último dos sem iPods

Ricardo Freire

Confirmado: eu sou a última pessoa do planeta a não ter um iPod. A essas alturas cada habitante de Papua-Nova Guiné já é dono do seu aparelhinho, e a ajuda humanitária à África já inclui cestas básicas de mp3. Só eu continuo nesse estágio inferior da evolução humana: não, meus ouvidos não têm fio.

Demorou para eu me dar conta de que era o último dos terráqueos sem iPod. Foi semana retrasada, para ser mais exato. Naquele momento, o universo ao meu redor se revoltava contra o fato de os novos CDs da Marisa Monte virem com um programa insidioso que se auto-instala em computadores e impede a gravação, ou dificulta a transferência, ou pelo menos enche o saco de quem quer ouvir músicas legais (nos dois sentidos) nos seus iPods.

Antes de mais nada, devo declarar meu total apoio aos que se sentem prejudicados – mesmo sem saber direito do que estou falando. Você não vai acreditar, mas eu nunca sequer coloquei um CD de música no computador. Nem ao menos para simplesmente tocar – que dirá, gravar. Eu sou do tempo em que cada eletrodoméstico tinha apenas uma função, entende? Se fosse três-em-um, é porque não fazia nenhuma das coisas muito bem.

Não mais. Nenhum aparelho moderninho que se preze se contenta em executar apenas aquela tarefa básica para a qual foi inventado. Um telefone celular que não escreva ou que, imagine, não tire fotos, está condenado à execração pública (dele e do seu dono). Você leu sobre a nova geladeira que acessa a Internet? É o tipo de coisa que quem não tem um iPod não consegue imaginar.

O alvo da gravadora da Marisa Monte, ao imiscuir um programinha maroto nos CDs, é tentar diminuir a pirataria virtual, impossibilitando, se é que eu entendi bem, a transferência dos arquivos das canções para outros computadores e para os aparelhinhos que tocam mp3 (dos quais a estrela maior é o iPod).

Apesar de nunca ter transferido música para computador de ninguém que seja, de pirataria para uso pessoal eu entendo. Passei boa parte dos anos 80 (esses mesmos que agora estão na moda) transformando meus discos em fitas cassete. [Fita cassete: parecia uma dessas fitas jurássicas de vídeo, só que menorzinha. Ah, sim: e só reproduzia áudio.] Gravar fita cassete era um dos esportes mais divertidos daquela época. Eu nunca tive a oportunidade de queimar um CD de música, mas tenho certeza de que não chega perto do prazer de gravar uma fita cassete.

Diferentemente do que acontece hoje com os CDs piratas e iPods, o elemento mais importante na gravação de uma fita não era o equipamento: era a pessoa que pilotava o aparelho. Saber soltar o disco e apertar as teclas “play” e “REC” no momento certo – e com o volume de gravação adequado – era uma ciência. Tudo bem: hoje existem os DJs, que fazem mais ou menos a mesma coisa; mas eles são profissionais. Nós éramos amadores. Eu me lembro de ter gravado fitas antes mesmo da invenção da tecla “pause”.

Dia desses precisei jogar fora todo o meu infinito particular de fitas cassete. Mofadas, e sem nenhum aparelho em funcionamento onde pudessem ser tocadas, elas só serviam para ocupar espaço. Daqui a duzentos anos, dificilmente algum arqueólogo conseguirá dizer qual era a diferença entre uma fita normal, uma cromo e uma ferro-cromo. Mas os iPods estarão lá, indestrutíveis, com todas as músicas de todos os tempos armazenadas para a eternidade.

Meu problema é que eu não consigo me entusiasmar pela idéia de guardar todas as músicas de que gosto num negócio menor que um radinho de pilha. [Radinho de pilha: aparelho transistorizado que captava emissoras AM e FM, e funcionava com baterias cilíndricas, que eram vendidas em mercadinhos, padarias e botequins, ou mesmo em supermercados, junto aos caixas, no meio das balas, chicletes e chocolates.]

Tenho pelos meus discos o amor táctil que Caetano Veloso disse ter pelos livros. Preciso das capas, dos encartes, das caixinhas lascadas. Vinte anos atrás já foi muito difícil deixar para trás as capas plastificadas, os remendos com fita durex e os riscos dos meus LPs de estimação. [LP: objeto circular com sulcos que armazenam sons de maneira analógica; atualmente conhecido como “vinil”.] Não, não me peçam para passar por tudo isso novamente.

Mas o iPod não chegou para substituir apenas a minha estante de CDs. Já tem iPod que armazena e passa vídeos. E a coisa não deve parar por aí. Daqui a pouco tudo o que se imaginou que seria feito por um aparelho só – primeiro, pelo computador; depois, pelo celular – vai ser feito pelo iPod. Porque Steve Jobs descobriu que ouvir música é a necessidade fisiológica número 1 do ser humano deste milênio. Todas as outras derivam dela.

E eu, que me achava tão moderno, que comecei a usar computador quando todos ainda estavam na máquina de escrever, que estou na Internet desde quando a conexão caía a cada 30 segundos, que sou o Googledependente mais antigo que conheço, vou ficar para trás. Eu era moderno. Agora não passo de um obsoleto precoce.

Mas nem tudo está perdido. De repente, posso ganhar a vida com a minha obsolescência. Como último habitante do planeta a não ter um iPod, não vai demorar muito até que eu comece a ser convidado para programas de TV. Posso ser alvo de estudos antropológicos. E até virar objetivo de tarefas de gincanas. Ainda fazem gincanas? Antes da invenção do iPod, faziam.

7 Falaram:

At 18/4/06 20:57, Blogger Marcela Brack Mourão said...

ainda não li. apenas a primeira frase. mas quero acrescentar:
EU NÃO TENHO IPOD, porque I não pode, não. não tenho grana. bah, que piada infeliz. mas é verdade, não tenho esse troço.

 
At 18/4/06 21:02, Blogger Marcela Brack Mourão said...

muuuito bom o texto. e gravar fita K7 era o que eu mais adorava fazer no mundo!!

 
At 18/4/06 22:29, Anonymous Lafayette said...

Ele é gênio. Tenho assinatura da Época só por causa dele. Pode? Ih... pode! (Marcela, te imitei na piada sem risos)

Agora, essa da fita d cromo e ferro-cromo, ele tirou lá do fundo, falso, do baú, heim?

 
At 19/4/06 09:21, Blogger Sabrina said...

Putz... Lembrei das minhas tardes em frente ao "3 em 1" (LP, toca-fitas e rádio) gravando fitas-cassete para viagem... Pior era quando a gente tentava gravar do rádio e aparecia o slogan da emissora no meio da música, eu odiavaaaaaa!

 
At 19/4/06 21:08, Blogger Fernanda Souza said...

Também me identifiquei!!! Muita fita K7 já gravei! E como a Sabrina, odiava quando aparecia FM 104, no meio da minha gravação.

E eu também não tenho Ipod... E andava querendo comprar um radinho de pilha pra escutar AM. Ganhei de Páscoa... mas o námor teve problemas para encontrar pois nas lojas só queriam vender mp3 player.

 
At 20/4/06 11:38, Anonymous nono said...

me junto ao bloco dos sem I Pod.
Vocês já perceberam que o mundo do mp3 se divide em dois: os que tem um simples mp3 player e os que tem I POd. Sim, porque pra ser moderno de verdade tem que ter I Pod, qualquer mp3 player não vale.
Conheço gente que tem I Pod, e que nem se lembra de usar. Mas é muderrrno, né? Não dá pra viver sem, afinal tem que se ter assunto com a galera dexcolada.....

 
At 20/4/06 15:12, Blogger Marcela Brack Mourão said...

não!!!!!!!!! eu nem mp3 player tenho! acho que suicídio é um dever no meu caso!

 

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