segunda-feira, março 27, 2006

Sempre há tempo

O Marcelo pediu uma dica de bairros menos poluídos na região central da cidade. Minha resposta vai aqui, com a reprodução um pouco muito atrasada de um texto do Márcio que saiu no caderno ZH Zona Sul do dia 10.

Luta pela independência

Márcio Pinheiro *


Costumo brincar com alguns amigos que gostaria que meu bairro fosse emancipado. Já tenho na cabeça as fronteiras bem definidas, sei quais os lugares que mereceriam entrar em um eventual guia turístico e também quem indicaria para formar um conselho de notáveis para a manutenção das características locais.

Como temos até um CEP único – lá não é esse comum e geral 90 mil e qualquer coisa e, sim, um personalizado e exclusivo 91 mil – ficaria ainda mais fácil de marcar as diferenças com Porto Alegre. Mas aí esbarro num problema: qual é o meu bairro? A maioria das pessoas que conheço - de lá e de fora - se refere como sendo a Cavalhada. Outros – um pouco por esnobismo, outro pouco por alguma identificação carioca - preferem chamar a região de Ipanema. Também pela vizinhança e talvez influenciado pelo lotação que passa por ali, o local ainda poderia ser identificado como uma parte do Jardim Isabel. E, para aumentar ainda mais a discussão, a lista telefônica prefere indicar a região pela pouco conhecida alcunha de Jardim Ipanema.

O fato é que, excetuando a nomenclatura, o bairro – ou, vá lá, o pequeno município que tenho em minha mente – é de um tamanho ideal e de um espírito original. Dá a Porto Alegre os indicativos de que se o desenvolvimento está na Zona Norte, o prazer e o hedonismo rumam para o Sul.

É uma região tranqüila, das mais arborizadas da cidade, com poucos (porém bons) restaurantes e com aquilo que o senso comum costuma classificar como qualidade de vida. Foram esses os argumentos que utilizei há sete anos para convencer a minha mulher de que deveria colocar a região entre os locais onde ela procurava uma casa para nós. Ela, criada na superpovoada Petrópolis, achava os lados da Zona Sul a última fronteira e rebatia minhas sensatas ponderações com um singelo: "É muito longe". Agora, perguntem a ela ou a um de nossos dois cães onde eles preferem morar?

Esse argumento da distância também é usado por alguns amigos meus que tentam desqualificar a região. Pobres coitados! Mal sabem que o caminho - nem tão longo que pareça outra cidade nem tão próximo que pareça Porto Alegre - serve também como um maravilhoso despressurizador das tensões adquiridas na metrópole.

Na verdade já estou achando a idéia de emancipação pequena demais. Passarei a lutar pela independência.

* Editor-assistente do Segundo Caderno de ZH e ativista da
independência do bairro em que mora na Zona Sul

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