quinta-feira, novembro 11, 2004

Serviço poupado

Como é bom quando alguém escreve o que a gente está pensando muito melhor do que a gente conseguiria fazer. Como é bom também que ele receba para fazer isso. E melhor ainda que seja alguém tão fofo!

Com vocês, de novo, Ricardo Freire:

A culpa é nossa

Se você for como a imensa maioria das pessoas que eu conheço, você queria que George W. Bush perdesse. Infelizmente, a verdade é que os partidários de John Kerry, americanos ou não, deram muita munição para o americano médio votar em George W. Bush. Poucas vezes tantas pessoas tão bem-intencionadas terão feito tantos movimentos prejudiciais à própria causa.

De quem é a culpa da reeleição de Bush?

A culpa é dos franceses, que ficaram contra a invasão do Iraque desde o primeiro instante. O americano médio não está preparado para admitir a infalibilidade papal de seus presidentes no que concerne ao policiamento do planeta.

A culpa é dos ingleses, que não param de bater em Tony Blair pela comprovação da inexistência de armas químicas no Iraque. O americano médio não está preparado para admitir que o mundo estava certo, e seu país errado.

A culpa é dos povos periféricos, incluindo os brasileiros, que torceram por John Kerry como se estivesse em disputa a final de uma Copa do Mundo. O americano médio não está preparado para endossar a opinião do Terceiro Mundo quanto aos rumos da política de seu país.

A culpa é do Michael Moore, que ridicularizou George W. Bush de forma sensacional em Farenheit 11 de Setembro. O americano médio não está preparado para votar em nenhum candidato apoiado por radicais perigosos, inconseqüentes e visivelmente antipatrióticos.

(Um pedacinho da culpa é do júri do Festival de Cannes, que deixou a política falar mais alto que o cinema e deu o prêmio de melhor filme para Farenheit 11 de Setembro. O americano médio não está preparado para aceitar com naturalidade piadinhas da comunidade artística internacional.)

A culpa é de quem deixou vazar para a imprensa as cenas de sadismo militar americano naquela prisão do Iraque. O americano médio não está preparado para aceitar campanhas de desmoralização de seu Éxército.

A culpa é sobretudo dos gays e das lésbicas - e de seu paladino, o prefeito de San Francisco -, que resolveram botar na rua o bloco do casamento homossexual justamente no ano das eleições. O americano médio não está preparado para colocar na Presidência ninguém que não tenha posições fundamentalistas em matéria de família e reprodução humana.

Finalmente, a culpa também é de John Kerry - que, a exemplo de Al Gore na eleição anterior, teimou em se revelar mais inteligente, mais perspicaz e mais preparado que Bush. O americano médio não está preparado para escolher um presidente que pareça mais qualificado que o americano médio.

Ou seja: do jeito que andam os Estados Unidos, se o Partido Democrata quiser eleger novamente um presidente de seu país, deve apresentar um candidato que seja abertamente beligerante, paranóico, imperialista, carola e homofóbico.

Depois, é só fazer que nem no Brasil. Tão logo assuma o poder, basta que o presidente e seu partido revejam todas as suas posições, uma a uma. Para o bem do povo e felicidade geral de todas as nações.

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