domingo, maio 15, 2005

Matadouro no Mais

O texto está aqui, para assinantes do UOL, mas tomei a liberdade de transcrevê-lo, com o devido crédito.

A condição humana
JOCA REINERS TERRON
ESPECIAL PARA A FOLHA


Há livros que tratam da condição humana e ainda fazem rir, apesar da permanente porcaria dessa condição -ou talvez por isso mesmo, sei lá. Afinal de contas, como seria possível ler um romance sobre a maior matança da história européia, o bombardeio da cidade alemã de Dresden na Segunda Guerra Mundial, onde 135 mil pessoas foram mortas (quase o dobro de vítimas da bomba atômica lançada em Hiroshima) e ainda sorrir?

Pois é o que acontece na leitura de "Matadouro 5", a obra-prima de Kurt Vonnegut, um dos maiores ficcionistas de língua inglesa na ativa. Ou seja, ainda vivo, apesar de esquecido. Coisas da vida.

Publicado em 1969, no auge da Guerra do Vietnã, "Matadouro 5" foi o livro que levou Vonnegut ao reconhecimento mundial. Antes um bioquímico e antropólogo, além de publicitário e repórter, Vonnegut esteve em Dresden. Prisioneiro do Exército alemão (foi preso na batalha de Bulge, uma das mais sanguinárias da Segunda Guerra), o soldado Vonnegut Jr. conseguiu refugiar-se num matadouro subterrâneo, junto com outros sobreviventes.

Lá fora, niágaras de fogo destruíam a bela cidade de Dresden e seus habitantes. Coisas da vida.

Dresden não abrigava indústrias militares, muito menos era local estratégico que abrigasse tropas, além de ser uma cidade de enorme beleza arquitetônica. "Grande parte das cidades da Alemanha havia sido pesadamente bombardeada e queimada. Nem mesmo uma janela havia se quebrado em Dresden", conta Vonnegut. "Em Dresden, os radiadores a vapor ainda assoviavam alegremente. Bondes retiniam. Telefones tocavam e eram atendidos. Havia teatros e restaurantes. Havia um zoológico." Mas o que a guerra tem a ver com isso? Depois das bombas norte-americanas, restou apenas a morte. Coisas da vida.

Depoimento e sátira

Com "Matadouro 5", Kurt Vonnegut não atingiu somente o sucesso popular mas também fixou a personalíssima forma de narrar adotada por ele na maioria de seus livros posteriores. Misturando depoimento pessoal, sátira deslavada, elementos de ficção científica e um sarcasmo demolidor, a partir de "Matadouro 5" Vonnegut começou a reescrever sempre o mesmo livro, assim como outros autores de estatura semelhante o fizeram. Mérito de grande escritor.

Billy Pilgrim é o principal personagem do romance. Um tanto maluco, ele também esteve em Dresden no dia fatídico e, mais do que isso, no mesmo açougue que serviu de abrigo a Vonnegut. Verdade ou ficção, pouco importa, já que às vezes todos os personagens de Vonnegut parecem ser seus alter egos, e Pilgrim não escapa dessa condição.

O pobre "freak" costuma viajar no tempo, indo e voltando conforme sua mente determina, e, assim, Vonnegut vai aproveitando essa sua peculiar capacidade para nos contar a história de Dresden entremeada à de Pilgrim (que envolve diversos veteranos do Exército e até mesmo Kilgore Trout, um escritor de ficção científica que aparece em outros livros de Vonnegut, além de se parecer muitíssimo com o próprio - eu não havia falado em hiperpopulação de alter egos?).

Além disso, Pilgrim também foi abduzido por alienígenas do planeta Tralfamador. Epa, mas não era um livro antibelicista, centralizado na tragédia de Dresden? Pois é, nos livros de Vonnegut nada é o que parece ser. Coisas da vida.

Rir dos momentos ruins

Os tralfamadorianos, com sua desencanada sabedoria, servem como divertido contraponto às mazelas humanas. Nos trechos autobiográficos, Vonnegut conta do período em que sua resposta à pergunta "o que você está fazendo?" era dizer que escrevia um livro sobre Dresden. Um dia o cineasta Harrison Starr perguntou-lhe: "É um livro de guerra?". Vonnegut disse que sim. "Sabe o que digo às pessoas quando fico sabendo que elas estão escrevendo livros antiguerra?", falou Starr.

"Eu pergunto: por que você não escreve um livro antigeleiras?" Ou antitsunamis, pouco importa. Esse é o típico humor vonnegutiano, a maneira de rir dos momentos ruins da vida como apenas um pacifista nada ortodoxo pode fazer. Kurt Vonnegut sempre fez o que Einstein faria, se tivesse se dedicado à literatura: rir do quão ridículos podemos ser. E somos, quase sempre. Coisas da vida.

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Joca Reiners Terron é escritor, autor de "Hotel Hell" (ed. Livros do Mal) e "Curva de Rio Sujo" (ed. Planeta), entre outros livros.
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Matadouro 5
230 págs., R$ 15
de Kurt Vonnegut. Trad. Cássia Zanon.

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