segunda-feira, julho 18, 2005

Da precisão das palavras

Sempre que me perguntam qual a minha qualquer coisa preferida, tenho vontade de sumir. Qualquer coisa que eu escolher vai automaticamente eliminar dezenas, centenas, quiçá milhares de outras quaisquer coisas que eu também adoro mas que não me vieram à mente naquele exato momento.

Mas tem uma pergunta específica desse gênero que me perturba com muito mais força: "Qual a tua palavra preferida?" Como assim? Em que língua? De que tipo? Substantivo, adjetivo ou verbo? Para que circunstâncias? Co-mo as-sim?

Cada palavra tem seu papel no papel. Uma palavra mal escolhida pode provocar desastres ou arruinar completamente todo um texto, uma fala, um pedido, uma explicação. Uma concordância errada pode esculhambar com a reputação de qualquer criatura.

Sou uma apaixonada por palavras. Quando criança, gostava de ler o meu Minidicionário Aurélio. Sim, ler. Aos oito anos, achava que se soubesse o significado de todos os verbetes seria a pessoa mais inteligente do mundo. Desnecessário dizer que jamais cheguei à metade da letra A. E estamos falando do minidicionário...

Hoje me dou conta de que virei uma chata. Certo, sou chata em vários outros aspectos também, mas trabalho com palavras, com colegas que trabalham com palavras, e muitas vezes me pego tentando impor a eles as minhas manias, as minhas implicâncias e a minha obsessão pela precisão, ainda que esta precisão esteja apenas na minha cabeça, não possa ser medida de maneira exata.

Minha chatice chegou ao extremo. Ao ponto de que hoje eu não leio mais, reviso. E dentro desta minha mente perturbada é até simples definir o que considero um bom texto: não me fez parar, não me fez trocar nenhum termo mentalmente? É ótimo!

É por este motivo que sequer vou reler o que está aí em cima. Se fizer isso, acabo desistindo de clicar em "publicar postagem" – tradução, aliás, é de uma infelicidade atroz... desde quando isto aqui é uma postagem, pelo amor de Deus?


*


Ah! tinha até esquecido por que pensei em escrever isso tudo. Foi por causa da coluna de hoje do Joaquim Ferreira dos Santos, que mostra como usar bem (e absurdamente bem) palavras que sequer fazem parte do nosso cotidiano:
Destrambelhadas

Quando o cara do Congresso chamou de “destrambelhado” o espião da Abin que o tinha xingado de “besta-fera”, eu pensei cá com os meus botões. É um assombro! É a senha! É a figurinha carimbada que faltava, o cacique bororó na estampa Eucalol, o aiô silver adentrando o Zorro na pradaria semântica. A língua lambisgóia, um moto-perpétuo desta coluna, havia chegado ao papo do poder e de novo precisava ser saudada. Alvíssaras!

Os leitores, doces pândegos desbussolados que vivem pedindo a volta das mocetonas, das embusteiras, das marias mijonas e donas fulustrecas, esses doces mocorongos de uma figa não erram nunca. Está na hora do cronista não se fazer de difícil, parar de cortar o dobrado de sempre com a falta de imaginação e botar o galho dentro. Transbordar velhaco, num texto transviado, o que de Brasil lhe vai ao redor. É o momento de fazer como Otelo Trigueiro, o Bussunda da Rádio Nacional nos anos 50. “Se os ouvintes preferem”, dizia o gaiato, “pra que discutir com os ouvintes?”. Chega de botar os bofes pela boca atrás de uma crônica original que nunca vem.

Destrambelhado é do piru.

Se os leitores querem ouvir de novo novas palavras velhas, como tonitroam semanalmente os tambores que agora chegam não mais por fumaça mas por e-mails, não sou eu, fazfavoire, parvo portuga, paspalho patusco, parlapatão pelintra, sempre carente de qualquer idéia semanal, que vou dar uma de besta-fera e peitar a realidade servida à leite de pires na minha porta. Aceitei a dica. Num país de ladrões, chega de dar tratos à bola, emagrecendo que nem um pau de virar tripa, atrás de uma pensata original.

Botei de novo aquelas velhas senhoras assanhadas para fora da cama do dicionário, algumas enrabichadas, outras futriqueiras, botei todas num tílburi, uma coleção de chistes escangalhados, chacotas de bufoneria, farândolas fuleiras, e chispei com elas na minha velha Remington. Hélas! Ei-las!

Desde que dezenas dessas palavrinhas songamongas, pitombas pândegas há muito esquecidas nos jardins dos aurélios, começaram a aparecer aqui como se fossem um mantra para recuperar um país que já se foi, outras palavras da época também me foram enviadas pelos leitores. Algumas ficavam na dúvida se entravam pelo basculante ou vasculhante. Se de chapéu ou guarda-chuva. Se de coque-banana ou ninho de passarinho. Cada uma usou a condução que podia, teve quem veio de assistência, rádio-patrulha, lambreta, tintureiro, rabecão e lotação. Zanzavam trôpegas, marcadas pelas perebas do tempo, a tristeza profunda marcada em cada sílaba. Haviam sido trocadas por esse rame-rame rastaqüera de palavras ordinárias como potencializar, capilaridade, alavancar, impactar, esse valhacouto ordinário de bandidas que não fazem nenhum sentido e acham que agregam valor. As coitadinhas não mereciam tamanha prosopopéia.

Os leitores mandaram tudo que durante anos ouviram da vovozinha, escarafuncharam na cachola palavras que ficaram conservadas na moringa da cozinha, açucenas catitas que dão it na penteadeira verbal, pintassilgos que ainda fazem tiruliru em nossa imaginação. Aqui estão mais algumas jamais vistas nas edições anteriores. Folgada, muquirana, esculhambada, pau mandado. Dão fricote e faniquito como qualquer broto flozô, neurastênicas apenas porque forçadas pelo silêncio de todos esses anos. Querem de novo o frege, a fuzarca, a azáfama e o fuzuê de serem vociferadas altaneiras onde quer que seja. Lamentam que tenha sido no rififi do planalto.

Elas meteram suas melhores japonas, negligês diáfanos e galochas, todas pintadas feito uma macaca Sofia — e, mais uma vez, ei-las! Me passaram um pito, sem que eu tivesse a mínima culpa, tiriricas das idéias, porque ficaram todo esse tempo no esquecimento. Reivindicam o mesmo destaque das fulaninhas que apareceram aqui. Querem a possibilidade de voltarem num jornal de família antes que surjam na boca de deputado boquirroto. Faço-lhes gosto. Curtam seus 15 segundos, peraltas levadas da breca, e mostrem que o país foi pras cucuias. Um panamá, uma esbórnia. Aproveitem e tomem uma atitude. Ponham pra correr essas santinhas do pau oco, palavras biltres como disponibilizar, que se dizem a língua culta de hoje. Acima de tudo, queridas sacripantas, não enfiem a viola no saco.

É um país de bufoneria, políticos canastrões falando uma língua já passada e revelando ao país sua culpa no cartório, a vocação para seca pimenteira do progresso. Sempre fazendo farol com o dinheiro público e, até quando?, mijando fora do penico. Mequetrefes folgados, transviados de meia-tigela, excelências xexelentas. Me admira muito! Não se mancam! Vão ver se eu estou na esquina! Estão me dando nos nervos!

Os editoriais já usaram de todo o português moderno para expressar o assombro de um país que acorda do sonho e se vê desmilingüido e macambúzio como sempre, de ovo virado como nunca, com a macaca, com a cachorra, um gosto de que deu zebra e carraspana chinfrin no céu sem estrelas da boca. As palavrinhas jogadas para escanteio pelo pseudo-avanço da língua gostariam de ter voltado mais serelepes, ameigadas e fofas, gostariam de ter estendido o linóleo de florões e saçaricarem felizes a algazarra nostálgica — mas elas tomam simancol. Sem ter o que fazer, ficam no Asilo da Velha Ortografia lendo o GLOBO. Sabem tudo. Nesse mato tem coelho. Desse mato não sai cachorro. Nessa imensa estrovenga em que o país se meteu, cercado de estróinas por todos os lados, só cabe o vitupério sarnento. Bilontras. Pelintras. Estarolas. Torpes. Embusteiros. Celerados.

Nossas doces sirigaitas querem voltar à língua falada, mas sem cair em boca de Matilde. Têm compostura. Cansadas desse pega-pra-capá geral em que o país se meteu, escabriadas por terem que ficar, como todo brasileiro, com um olho fritando o peixe e o outro olhando o gato, nossas sirigaitas queridas lamentam entrar nesse jogo pela porta do mensalão — mas antes de se despedirem querem dar um recado. Chega de aleivosia malsã. Destrambelhada é vossa excelência.

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